ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

25.1.26

1938: UMA MOCINHA JUDIA ALEMÃ VEM PARAR NO RIO DE JANEIRO

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Minha mãe, Anita Korytowski (sobrenome de solteira: Paderstein) nasceu em Eppstein, perto de Frankfurt, Alemanha, em 25 de janeiro de 1926. Em 19/12/1959 faleceu de câncer no seio, conforme narro no meu livro Minhas memórias de meu pai (clique no nome do livro para mais informações). De 1o de janeiro de 1938 a 23 de agosto de 1939 (ou seja, quando "mocinha" com 12-13 anos) ela escreveu um diário abrangendo o período em que, fugindo da barbárie nazista, meus avós deixaram a Alemanha com as duas filhas e recomeçarem a vida aqui no Brasil. O olhar de minha mãe sobre os acontecimentos — a perseguição implacável aos judeus, a viagem de navio, a chegada ao Rio, a adaptação à nova pátria — é fascinante e comovente. Selecionei trechos interessantes do diário que gostaria de compartilhar com vocês. O texto original em alemão está disponível no Google Docs. A tradução para o português é minha. 

Esta postagem, que estou republicando no centenário de nascimento de minha mãe, foi originalmente publicada no cinquentenário de sua morte, daí os comentários de 2009 em diante ao final.

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Sábado, 1o de janeiro de 1938

Estou feliz porque tenho um diário e posso escrever nele. Todas as minhas experiências deverão vir para cá. Também quero escrever tudo que me vem à cabeça.
No primeiro dia do ano dormi até tarde e depois estive na casa da Sra. Anna Mankiewitz que me convidou para almoçar. Foi muito bom e gostoso. Menu: bouillon [caldo] em taças, pato com castanhas e batatas, saladas diversas e no final sorvete. Muito gostoso. Hanno veio me levar ao cinema. Fomos assistir Rekrut Willie Winkie [A queridinha do vovô] com Shirley Temple. O filme tinha legendas em alemão. Foi bem legal. [...]

Domingo, 13 de fevereiro de 1938

Hoje pela primeira vez na vida fui num concerto. Simplesmente indescritível. Tocaram Haydn e Beethoven. Fabuloso. Walter Gieseking [foto abaixo] tocou piano. Eu queria pedir um autógrafo, mas infelizmente o intervalo foi curto demais e fiz uma besteira. Eu consultei um senhor de fraque mas ele não entendeu direito o que eu queria. Aí eu expliquei: “Não, eu queria um autógrafo de W. G.” O idiota então disse: “Eu não tenho nada com isso.” Aí tocou o sinal e voltei ao camarote. Conseguimos ótimos lugares. Aquele início de noite foi divino.

WalterGieseking

Quarta-feira, 17.2.1938
Hoje recebi uma carta encantadora do Peterle. Ele escreve uma gracinha e o melhor é que talvez na Páscoa virá passar uns dias conosco. Estou supercontente. Vai ser muito legal. O idiota do Hanno nem me escreve. Talvez não goste do fato de que sou judia. Mas não dá para acreditar, porque em Berlim nos demos tão bem. Fora isso, o dia foi bem monótono.

Domingo, 20 de fevereiro de 1938

Me considero bem crescida para os meus 12 anos. Tive uma ideia. Quando for para Frankfurt, vou me vestir e maquiar como se tivesse 14 anos. Não posso descrever exatamente. De qualquer modo, uma coisa é certa: não me sinto como tendo 12 anos. Mas acho que isso não é ruim. Só se vive uma vez!!!

Casa de meus avós em Eppstein (Hof Häusel) Hof Häusel, a propriedade rural de meus avós em Eppstein, Alemanha. Foto tirada por mim em 2007.

Oh, faz 2 meses que não escrevo. Taaaanta coisa mudou. Hoje são 3 de julho. Comigo não aconteceram grandes coisas. Passei 8 dias em Nordhausen e foi bem maneiro. Depois tem outras coisas menos importantes. Fui ver Broadway Melodie 1938. O filme foi muito legal, e Eleanor Powell sapateou magnificamente. Tomamos a decisão de emigrar para o Rio de Janeiro. Nosso sítio [Hof Häusel, em Eppstein, perto de Frankfurt] já foi vendido. Tudo acontece tão rápido.

21 de outubro de 1938

Saímos da Alemanha!!!!!!
Vou escrever bem pouquinho. Já está bem tarde. Estamos em Nova York, onde ficaremos até sexta-feira da semana que vem. [Antes de virem ao Brasil, meus avós ainda viajaram aos EUA, onde vivia a irmã do meu avô, com esperança de talvez conseguir visto de permanência ali. Depois retornaram à Europa para enfim embarcarem na França rumo ao Brasil.] O sítio foi vendido. Depois de muitos aborrecimentos com as autoridades, fizemos nossas malas. Há muito tempo não escrevo, mas agora vou à forra. Mais uma coisa. Podemos nos considerar felizes por termos saído daquele país (a situação de todos os judeus não é boa. A maioria não consegue sair do país. Podemos nos dar por felizes!!!!!!! São dez e meia da noite. Para nós começa uma vida nova.

RioDeJaneiroO Rio de Janeiro segundo um livro infantil alemão de geografia que tenho desde criança. Tradução da legenda: “O Rio de Janeiro é uma das cidades mais belas da América do Sul, quiçá do mundo. Seu símbolo é o Pão de Açúcar.”

Segunda-feira, 7 de novembro
[Aqui parece haver um erro de datação. A Noite de Cristal, quando as sinagogas foram incendiadas, ocorreu na noite de 9 de novembro. A esta altura meus avós com as duas filhas já estavam em Paris.]
O pior ainda estava por acontecer. Todos os judeus foram buscados. Os homens estão se escondendo. Horrível. Todas as sinagogas foram incendiadas, as lojas saqueadas. As pessoas mandam cartas com notícias terríveis. Não dá para descrever com palavras. Estamos perplexos, corremos para ler os jornais. Sinistro. A maioria já está morrendo lá.

Quarta-feira, 9 de novembro

Felizmente vovó [a mãe de minha avó, que acabou se suicidando em 1942 para não se entregar à Gestapo] ainda está muito bem. Noite sim, noite não, telefonamos para ela. Hoje fomos de novo ao cinema e vimos um lindo filme. Mas nós nos preocupamos muito. A situação está terrível. Todos os homens foram detidos [nos campos de concentração de Dachau ou Buchenwald].

Sexta-feira, 11 de novembro

Meus pais saíram, e de manhã fui à Torre Eiffel e tirei fotos. À tarde fui com mamãe ao cinema. Vimos um lindo filme.
Estamos arrasados. Recebemos cartas terríveis.


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Sábado, 12 de novembro

Hoje é uma data importante em Paris. Em bom alemão, Heldengedenktag [literalmente, dia em memória aos heróis; trata-se do Jour d'armistice, dia do armistício, dedicado à lembrança dos mortos na Primeira Guerra Mundial; há um erro de datação, pois este dia cai em 11/11]. O Arco do Triunfo está iluminado. Fabuloso. Desfiles enormes. Cordões de isolamento por toda parte. Paradas militares fantásticas.
Chegou telegrama de Delliehausen dizendo que os Lifts [espécie de engradado para transporte de móveis] já foram despachados. Que sorte, pois nunca se sabe o que esses cachorros farão.

Domingo, 13 de novembro

Passeio com Lucie por toda Paris. Estivemos em Notre Dame. Maravilhoso. Tão tranquila e bonita. É disso que estamos precisando. No túmulo de Napoleão em uma outra igreja, e em outras partes de Paris. A tarde transcorreu bem agradável.

Segunda-feira, 14 de novembro

Fomos de novo ao cinema. Está chegando a hora da despedida. Respiramos aliviados. Horrível estar tão longe sem poder ajudar, mas por outro lado tão terrivelmente perto.
[...]

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Terça-feira, 15 de novembro

Fomos ao Louvre e vimos a Vênus de Milo. Fiquei muito tempo sentada observando. Aquilo foi fabuloso. Helga [minha tia, irmã de minha mãe] se sentiu depois tão nauseada que teve de sair. Depois ainda estivemos na Mona Lisa, que não me agradou nem um pouco. Afora isso, nada de especial.
Estou feliz porque em breve vamos embora!!!!!

Quarta-feira, 16 de novembro

Hoje fizemos as malas. Ainda fiz compras com Daisy. O último dia em Paris.
Quanta coisa nós vimos.

Quinta-feira, 17 de novembro

De manhã nos despedimos. Apeguei-me muito a Daisy. Na estação do trem fomos encontrar logo Gisela. Ninguém merece.
Agora estamos no navio Massilia que nos levará à nossa futura pátria. À noite queríamos ver a partida e ficamos até meia-noite no convés. Além de nós havia poucas pessoas, que também não sabiam que, devido à neblina, não partiríamos. Depois fomos para a cama tristíssimos.

Passaporte1
Passaporte2
Passaporte com que meu avô emigrou para o Brasil. O J vermelho designa “Jude” (judeu). À direita o visto de permanência temporário obtido no consulado em Frankfurt. Quando meus avós já estavam no Brasil, o cônsul Carlos Alberto Gonçalves extorquiu-lhes uma fortuna pelo visto definitivo.

Sexta-feira, 18 de novembro

Dia ruim, enevoado e frio. Partimos ao meio-dia. Primeiro fomos à nossa cabine, que é bem bonita, desfazer as malas.
[...]

Segunda-feira, 21 de novembro

Dia muito bonito. Estamos em Lisboa. A maioria dos passageiros desembarcou e está fazendo uma excursão. Nós passeamos por conta própria. Estava bem quente, mas mesmo assim muito agradável. Às seis horas partimos novamente. Conheci um homem jovem muito bacana, Ernst Hirschmann, com 23 anos. Talvez um pouco velho demais para mim, mas eu disse para ele que tinha 14 anos. Última coisa na Europa. Sorte!

Terça-feira, 22 de novembro

Os dias estão maravilhosos. O navio balançou um pouco, mas já nos acostumamos. Hoje à noite tem corrida de cavalos [perguntei à minha tia como era possível corrida de cavalos no navio, ela explicou que devia se tratar de algum jogo ou brincadeira]. — — Foi muito legal. Também ganhamos um pouquinho.
[...]

Quinta-feira, 24 de novembro

Agora faz muito calor. Uma pequena prévia do Rio.
[...]

Segunda-feira, 28 de novembro

Na última noite de viagem teve de novo corrida de cavalos. Tivemos de novo um cavalo mas não ganhamos. A noite transcorreu bem agradável. Amanhã estaremos na nova pátria. Estou muito curiosa como será o Rio. Mas é uma pena que estamos chegando, pois a viagem foi supermaravilhosa, embora de noite fosse monótona. Sou uma porcona. [Provável referência a uns borrões de tinta no caderno — coisas do tempo da caneta-tinteiro.]

Diario
Página original do diário narrando a chegada no Rio.

Terça-feira, 29 de novembro

De manhã ouvi música. Gamei pelo violinista, ou teria sido por seus olhos bonitos? Mas ele nem me percebeu. Que pena.
Às quatro horas da tarde chegamos. Uma chegada fantástica. Sol brilhante, céu azul, em volta montanhas e diante de nós o Pão de Açúcar. Uma sensação maravilhosa. Nesse percurso tão bonito pouco antes do desembarque, vimos subitamente — como uma aparição celeste — a Cruz [o Cristo]. Mas a montanha sobre a qual estava não dava para ver [estava envolta em nuvens, como às vezes acontece]. Quando não se sabe disso, pode-se pensar que se trata de um milagre e morrer de susto. Por alguns minutos deu para vê-lo, e depois tudo desapareceu. Uma chegada dessas não se vivencia duas vezes.
Chegou a hora de mostrar os documentos. Estávamos todos tremendo, pois sabe-se lá o que o cônsul escreveu? Mas tudo deu certo. Lá embaixo algumas pessoas nos acolheram, pois não conhecemos nada aqui. Primeiro ficamos surpresos. Depois fomos cuidar das bagagens. Todas as 19 malas foram abertas. Uma trabalheira do cão. Mas 2 pessoas foram nossas acompanhantes. Não conhecíamos nenhuma das duas. Hertha também veio ao navio. Mas com razão fomos bem frios com ela. Ela trouxe flores.
Depois fomos de carro pelo Rio até um hotel em Copacabana. Que bonito! Tudo bem iluminado, mal dá para descrever. À noite primeiro jantamos e depois nos deitamos, após o fim de tarde extenuante, para dormir. Pensei ainda muito em G.L. Eu ainda o vi antes de desembarcarmos, mas depois o perdi de vista. Oh, que pena!
Primeira noite no Rio!

Digitalizar0081 O Cristo. As fotos em preto-e-branco do Rio são de minha mãe.

30 de novembro

O primeiro dia no Rio! Dormimos maravilhosamente. De manhã comemos muitas frutas. Sim, agora estamos neste lugar depois de tanta batalha [referência à dificuldade de conseguir os vistos, à burocracia nazista etc.]. Mal dá para acreditar. Vimos a praia maravilhosa de 16 quilômetros [as praias de Copacabana e Leme juntas têm uns 4 quilômetros; minha mãe exagerou um pouco]. Muito bonita.

Quinta-feira, 1o de dezembro

O segundo dia está ainda mais bonito. Meus pais saíram para fazer algumas visitas, e ficamos de novo sozinhas. Estamos morando num hotel alemão. Ótima comida.

Sexta-feira, 2 de dezembro

É maravilhoso aqui, o que não é de se estranhar. A 12 dias de distância da Europa, tudo de bom.
Hoje escrevemos cartas, e meus pais saíram de novo.

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Sábado, 3 de dezembro

Ainda não vamos à praia, pois primeiro é preciso se acostumar com o clima.
Pelo contrário, nem está fazendo calor, e no primeiro dia já fomos recepcionados por uma boa chuva. Enquanto nenhuma brasileira se atrevia a sair, fomos na rua com nossas capas de chuva. Pareceu engraçado.

Domingo, 4 de dezembro

Hoje fomos pela primeira vez no mar. Que maravilhoso. A água do mar bonita e morna.
Nossos pais estão procurando apartamento. Precisamos encontrar algo. As pessoas são todas muito gentis conosco.

Terça-feira, 6 de dezembro

Achamos um apartamento muito bonito. Quatro quartos, mobiliado. Ficaremos lá primeiro três meses, e depois veremos o que acontece. Antes vimos outro apartamento, mas horrível.

Quarta-feira, 7 de dezembro

Mudamos para o apartamento. As malas foram desfeitas. Está bem aconchegante aqui, após tanto tempo de novo um lar.

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Quinta-feira, 8 de dezembro

Mamãe queria ir primeiro na feira, mas não teve tempo. Maravilhoso cuidar assim da casa.

Sexta-feira, 9 de dezembro

Vivemos muito contentes. Nos divertimos muito.
Infelizmente temos muita correria com a legalização. Não há um só dia em que não tenhamos que ir ao centro, e aí vai sempre embora um dinheirão. Todas as assinaturas custam alguma coisa, e alguns contos já se foram.

Quarta-feira, 14 de dezembro

Estivemos no cônsul, este safado. Ele ainda quer nos arrancar dinheiro aqui, tenta meter medo em nós, mas nós não vamos aceitar isso. [A história de como o cônsul Gonçalves extorquiu dinheiro dos meus avós consta do livro O anti-semitismo na era Vargas, da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, a quem minha avó deu um depoimento. A biblioteca do Museu Judaico aqui do Rio possui um exemplar, doado por mim.]

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Domingo, 18 de dezembro

Fomos nadar. Eu agora sempre faço compras sozinha, o que é bem divertido, e também se aprende muito português. Normalmente ficamos em casa sem fazer nada.

Terça-feira, 20 de dezembro

Quase todo dia vou à praia, sempre encantadora e bonita como da primeira vez.

Quinta-feira, 29 de dezembro

Como sempre primeiro trabalhamos, depois do almoço costuramos, bebemos café e depois fizemos um belo passeio.
Nossos pais foram de noite a Copacabana, e nós vimos um bonito filme a cores.
Depois de amanhã já é Reveillon. Logo meu diário comemorará um ano de existência, mas está bem rabiscado. Daqui pra frente escreverei melhor.

Sexta-feira, 30 de dezembro

Amanhã à noite é Reveillon, e já convidamos um monte de pessoas.
Cedo à feira. Depois do almoço, nadei.
Meus pais estão agora à noite no cinema.
Fora isso não fizemos nada hoje.
A Senhora Steger acabou de telefonar contando que Tio Ernst Simon também foi preso. Horrível uma coisa dessas.
Mas aos poucos eles vão soltando todo mundo de novo. [De dezembro de 1938 à primavera de 1939 os judeus presos em Dachau e Buchenwald foram sendo soltos em troca do compromisso por escrito de deixarem em breve a Alemanha. A Solução Final — extermínio puro e simples — veio depois.]
Viemos ao Rio para morrer de frio, pois está chovendo e não está fazendo calor.

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Sábado, 31 de dezembro

1938 chegou ao fim, e logo começará o ano novo. Mas não precisamos ficar de luto pelo ano velho, pois raramente foi uma porcaria, pelo contrário, para nós foi bem agradável.
Passamos a tarde preparando sanduíches, fazendo compras, arrumando a mesa, pois convidamos para a festa de Reveillon 11½ pessoas. A meia pessoa é um bebê de 5 meses, porque uma das convidadas está grávida. A Senhora Branderstein nos ajudou bastante à tarde. Ele [o marido dela?] trouxe de manhã um rádio que ficará conosco durante o Reveillon, para animar o ambiente. Às oito e meia da noite todos chegaram pontualmente. [Pontualidade germânica, mesmo no Brasil!] Foi maravilhoso. Teve de tudo, e papai preparou um ponche espetacular, e à meia-noite foi a vez de 2 garrafas de champanhe. Estouramos de tanto rir e nós duas [minha mãe e a irmã] dançamos à beça. Em suma, aproveitamos ao máximo.
À meia-noite brindamos a um feliz ano novo e comemos ótimas salsichas.
Às 3 da madrugada, todos se despediram, após aquela festa de Reveillon maravilhosa.
Só lamento uma coisa: que vovó não esteja conosco.
O Dr. Mayer disse que danço muito bem, e foi tudo ótimo.
Realmente uma linda despedida de 1938.
Meu diário comemora um ano de vida.

1o de janeiro de 1939 no Rio de Janeiro

Um ano novo começou, que espero seja melhor que o velho. Hoje dormimos até nove e meia. Depois deixamos tudo de lado e ficamos até meio-dia na praia. Depois nos vestimos, após um banho de mar maravilhoso, e fomos às corridas de cavalo. Foi de novo maravilhoso, além de muito emocionante. Tenho um olho clínico para os cavalos. Fomos pra cama cedo.
[...]

Segunda-feira, 2 de janeiro

Minha primeira aula de português, que foi muito agradável. Dada por um jovem bem simpático de 17 anos.

Quinta-feira [5/1]

De manhã fomos ao centro na polícia tirar impressões digitais, o que é bem imundo. Depois já em casa ouvi a bela notícia de que a merda do cônsul quer que paguemos 30 contos. Acabou que ele conseguiu nos colocar em apuros, pois isto é muito dinheiro nas nossas circunstâncias. Temos mais ou menos o dobro. Mas não podemos fazer nada, pois ele nos ameaça denunciar às autoridades. Esse velho safado [Schwein em alemão, literalmente “porco”]. Torcemos para conseguir encontrar alguma saída, mas não vamos conseguir. Mas talvez ele se contente com a metade. Deveríamos ter dado a ele essa "ninharia" lá na Alemanha, porque lá tínhamos dinheiro. [Embora meus avós fossem ricos na Alemanha, havia uma limitação ao montante que podiam levar para fora do país.]

Sexta-feira [6 de janeiro]

O negócio com o cônsul chegou a uma conclusão. Ele exigiu 22 contos, que bem ou mal tivemos que pagar. [Quando instituído em julho de 1940, o salário mínimo valia 240 mil réis. Portanto, 22 contos de réis correspondiam a 92 salários mínimos. Com o salário mínimo a 937,00 hoje seriam 86 mil reais.]

Segunda-feira [9/1]

Hoje de manhã quis nadar na praia, mas infelizmente o banho de mar estava proibido. Ondas colossais.
À tarde dei uma volta. À noite vieram os Brandensteins, e saímos mais um pouco para passear. [...]

Terça-feira [10 de janeiro]

Em breve fará 5 meses completos que saímos da Alemanha.
Como o tempo voa. Enquanto isso as coisas lá parecem que estão de novo terríveis. Os judeus não podem dirigir carros, ouvimos dizer que só podem passear em determinados horários, e muitas outras coisas. Mas graças a Deus a vovó ainda vai bem.
Existe algum castigo para essas maldades? Não há limite para elas.

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Quarta-feira [11 de janeiro]

Pra isso viemos ao Rio: pra sofrermos da mesma falta d'água que tínhamos lá em casa [na Alemanha]. Desde as sete e meia da manhã, não temos nenhuma gota d'água. O porteiro não nos avisou que uma tubulação se rompeu. Copacabana e Ipanema inteiros estão sem água. Hoje à tardinha colocaram vários barris de água no pátio e os moradores dos apartamentos fizeram fila. Temos agora certa quantidade, e deu para lavar as louças o dia inteiro. O banheiro está fedendo por todas as frestas. Para amanhã cedo prometeram mais água, mas não acreditamos muito nisso, mas não estaremos em casa. Esperamos que tudo se resolva.

Quinta-fe
ira [12 de janeiro]
Hoje de manhã, para nossa alegria, justamente quando íamos sair de casa, a água voltou. Tranquilizados, saímos, pois queríamos passear com a Senhora Straus e a Senhora Kahn em Paquetá, uma ilha belíssima.
Na estação das barcas, encontramo-nos ainda com Papai e depois viajamos durante uma hora e meia em uma pequena barca. Super-relaxante, mas quente, nem dá para imaginar. Logo fomos a um restaurante e comemos e bebemos antes de mais nada. Em seguida fomos tomar banho de mar, a água não estava nada atraente. Às três horas, pegamos a barca de volta, depois que cada um de nós comeu, na estação, uma fatia de abacaxi. Depois retornamos e fomos para casa. Passamos um dia bem bonito. Mas fez um calorão e suamos em bicas. 37,5oC. Vimos o navio Monte Olivia.



Domingo [22/1]

Às 10 e meia da manhã, chegou o Peter e fomos à praia nadar. Passamos duas horas maravilhosas. Hoje nadamos até o posto, pelo menos 20 metros. [...] Peter telefonou para um amigo, que chegou às 2 e meia. Primeiro fomos de novo nas rochas [Arpoador] e às 5 fomos ao cassino [Atlântico]. Pena que o amigo Fritz não soubesse dançar. Helga dançou à beça com Peter, mas eu tive que ficar só olhando. (Ainda terei muitas oportunidades na vida de dançar.) Após um bonito show de variedades, voltamos para casa. Peter pagou toda a conta (20 mil), mas Helga não gostou daquilo, pois ele também não passa de um rapaz de 20 anos. Com Fritz consegui conversar bem. Uma tarde agradável. Na verdade, eu não deveria ir ao cassino (foi o que disse Mamãe, com toda razão), mas mesmo assim foi ótimo.

Quarta-feira, aniversário [25/1/1939]

Pois é, mais um ano se passou. Estou fazendo treze anos. Para minha grande alegria, ainda por cima chegaram presentes. É verdade que sem velas, mas foi muito, muito gentil [...]

Quinta-feira [26 de janeiro]

De manhã em casa. Chuva e mais chuva. Faz tanto frio que temos de andar de pulôver, e mesmo assim gelamos. A culpa é exclusivamente do devastador terremoto que matou 50 mil pessoas no Chile. Fui ao cinema. Um filme encantador.

[27/2]

Que horror eu ter ficado tanto tempo sem escrever. [...] Na segunda e terça-feira, fomos ao Carnaval no Centro. Foi divino. Fantasias esplêndidas nas cores mais maravilhosas, um corso espetacular [desfile de automóveis – ver foto abaixo] e à noite um fabuloso desfile. (O Carnaval de Mainz é uma porcaria em comparação.) Indescritível para os padrões europeus e nem adianta escrever a respeito. Foi maravilhoso. Fomos com Martin Mayer. Eu estava de sábado de manhã até hoje de manhã em Petrópolis com a família Spiegel. Primeiro comemos gostoso no Centro e depois partimos. Uma viagem fantástica pelo verde até chegarmos no alto da serra. De noite dormi otimamente, pois estava tão frio lá em cima que dormi com dois cobertores de lã e ainda assim gelei. Petrópolis fica a 800 metros de altura. É bem frio lá. [...]

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Fotos tiradas pela minha mãe no Carnaval de 1942

Sábado 11[/3/39]

Agora sei que moramos num apartamento bem grande e bonito. Sem mobília, sem gás, sem nada. Luz conseguimos logo. Telefone só ontem. Estamos aqui desde quarta-feira, dia 8. Dois dias dormimos em colchões sem o estrado da cama, tínhamos apenas mesa e sofá! Embaixo de nós fica uma padaria que assa pães a noite inteira. Em frente passa o bonde. Barulho não nos falta! Mamãe e Helga tapam as orelhas com algodão, eu já me acostumei com o barulho. Se conseguíssemos liberar os móveis da alfândega. Mas ainda vai demorar um pouco. Apanhamos sempre pãezinhos, à noite comemos no restaurante. Essa é nossa vida diária, só ontem aconteceu algo especial. Fui matriculada na escola. Entrarei na 5a série. Começarei na segunda-feira. Devo falar só português. Nunca fui a uma escola. [Na Alemanha, preceptores iam ao sítio de meus avós dar aulas à minha mãe e tia. Naquela época não era obrigatório frequentar a escola.] As aulas serão das 1230 às 1730.

Digitalizar0083 Minha mãe e eu no Corcovado

Sexta-feira, 17 de março

Faz oito dias que não escrevo. Muita coisa mudou. Nesse ínterim, chegou a segunda-feira. Hoje é 20.3. Temos todos os móveis. Já foram desembalados. Suamos horrivelmente. Além disso, sábado fui à casa da Inez e passei lá uma tarde agradável jogando muito pingue-pongue. De manhã Margot telefonou avisando que podíamos apanhar os móveis e depois o Dr. Müller dizendo que os Lifts chegaram. Quando saí e depois telefonei, eles já estavam lá, e de noite quando voltei, estava uma bagunça, e não conseguíamos arrumar mais nada. Os Lifts já tinham sido desfeitos. À noite dormimos sobre colchões, mas muito bem. De manhã começou a trabalheira. Tudo colocado no lugar, e desembalado, naquela calorão. Nada agradável, e suávamos em bicas. À tarde chegou o Dr. Mayer, que nos ajudou bastante, pois Papai estava arrebentado! Mas agora temos todas as coisas, pelas quais tanto esperamos. Mas tivemos que pagar 12.500 em vez de 8 contos. Mamãe logo tocou no novo piano e Helga, os discos. À noite dormimos nas camas. [...] Como de hábito, fui à escola. Resumindo, já me adaptei muito bem, no princípio tive grandes dificuldades, mas agora vai tudo bem.

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Segunda-feira, 24.4.1939

Faz um mês que não escrevo, mas isso aconteceu apenas porque estou indo à escola e sobra pouco tempo para escrever. Um mês inteiro já transcorreu, o tempo passa tão rápido. Temos a impressão de que já estamos aqui [no Brasil] há uma eternidade. Tenho agora meu lindo quartinho com uma escrivaninha encantadora onde posso trancar minhas coisas. Claro que isto é o mais importante. Trabalhamos muito em casa como fazíamos no sítio na Alemanha. Vou regularmente à escola, sobra pouco tempo, mas ajudo também de manhã. Já falo bem português. Estou me saindo bem na escola. [...]
Recebi uma carta de Peter de Zurique dizendo coisas horríveis. Três vezes teve que se esconder da Gestapo num caixote de madeira. Isso é gente ou animais ou doidos?!?! [...] Aqui já ficou bem mais frio. Aliás ficou tão fresco que andamos de coletes. O inverno logo chegará, embora sem neve. [...]

Digitalizar0069 Minha mãe e eu na praia de Ipanema, na época (meados dos anos 50) com bem menos prédios do que hoje.

Domingo, 30 de abril de 1939

De novo tenho muita coisa para escrever. [...] A semana inteira transcorreu com o colégio, fizemos prova de português, infelizmente minha nota não foi boa. Devo dizer que estudei a semana inteira, mas o esforço não foi recompensado. Às vezes tenho vontade de chorar quando leio algo errado e a turma inteira cai na risada. Meu Deus, de que adianta isso, tenho que me controlar. [...] Meu Deus, sou admirada em todas as esquinas, mas só por brasileiros comuns das ruas, nada que valha a pena. Mas isso não me deixa nem um pouco vaidosa. Ou talvez um pouquinho? [...]
Hoje passei uma manhã maravilhosa na praia. À tarde visitei Inez. Foi muito legal. Amanhã cedo tomarei banho de mar em Ipanema, e depois as três moças vêm me visitar. É tão bonito quando se tem boas amigas. Meus dias são preenchidos de forma tão bonita, eu sentia tanta falta de boas amigas em Hof Häusel. [...]

PS. Escrevi certa vez um romance curto inspirado na saga de minha família, recentemente publicado: Passaporte para o Paraíso. Mais informações aqui.

4.6.24

CONTRIBUIÇÃO DE MACHADO DE ASSIS, de CYRO DE MATTOS

 

Machado de Assis com Joaquim Nabuco aos 67 anos em foto de Augusto de Malta de 1906

        Nasce Joaquim Maria Machado de Assis a 21 de junho de 1839, na Quinta do Livramento, Morro do Livramento, Rio de Janeiro. Foi batizado na Capela da Senhora do Livramento. Filho de Francisco José de Assis, de cor parda, pintor e dourador, e Maria Leopoldina Machado, portuguesa da Ilha de São Miguel, lavadeira. Eram agregados da Quinta de Livramento, pertencente a Dona Maria José de Mendonça Barreto, viúva do Brigadeiro e Senador do Império, Bento Barroso Pereira. Os avós paternos foram os pretos forros Francisco de Assis e Inácia Maria Rosa. Viveu sua infância no Morro do Livramento e pouco se sabe dela. Cedo perdeu a mãe e uma irmã. Foi sacristão da Igreja da Lampadosa e aprendeu as primeiras letras numa escola de São Cristóvão. A madrasta Maria Inês, lavadeira, tinha um coração bondoso, que se afeiçoou e protegeu o menino na sua infância, pincipalmente depois que o pai faleceu.      

        Possuía uma saúde frágil, sofria de epilepsia e gagueira. Ao longo de sua vida foi vitimado por problemas nervosos, e, entre eles, a depressão, situações que se agravam com o falecimento da mulher Carolina, em 1904, a quem dedica um soneto do qual revela sua dor profunda com a separação definitiva do ente querido. Disfarçava a gagueira, a epilepsia escondeu da mulher antes do casamento, até que foi acometido de uma crise generalizada. Mesmo antes da morte de Carolina, ficou sem parte da visão, ouvia a esposa lendo para ele textos de jornais ou livros.     

           É possível, como querem alguns biógrafos, que da sua infância no Morro do Livramento Machado de Assis passou a ter os primeiros sentimentos da ambição para ascender no meio social. Soubesse de sua condição de inferioridade em razão da cor e origens humildes, ao perceber como a vida era diferente aos que pertenciam à elite social com seu modo de vestir e acontecer, cercados do bem-estar auferido da existência tranquila. Provavelmente, já percebesse suas inferioridades no ambiente em que as pessoas da classe privilegiada visitavam a chácara pertencente a Dona Maria de Mendonça.

Pelo seu projeto estético com a marca da genialidade, Machado de Assis se constitui em um fenômeno da literatura brasileira. Sua genialidade posta nos contos e romances provém em parte de sua paciência e seriedade para na passagem dos anos armar seu projeto criativo com arte, engenho e senso estético. Opositor dos que acham que a literatura é o sorriso da sociedade, era também da visão dos que improvisam em suas criações literárias, para ele literatura é coisa séria, requer a presença no plano estético sem superficialidade, de forma e fundo. É transfiguração da vida com o uso da palavra mítica, equilíbrio no discurso operado com técnica apurada, exige instrumental crítico que dá condições para saber dos meios utilizados na reinvenção da vida.

Por isso estudou os clássicos portugueses, como  Camões, Sá de Miranda, Frei Luís de Sousa, Filinto Almeida, João de Barros, Bernardim Ribeiro, Garrett, Camilo; clássicos gregos e latinos, a Bíblia; Rabelais, Montaigne, Flaubert, Merimée, Sthendal, Gautier, Balzac, Vitor Hugo, Diderot, Maupassant,  Voltaire; Poe, Fielding, Lamb; Shakespeare, Swift. De todos eles aprimorou os modelos da expressão, adquiriu a firmeza, simplicidade e economia dos meios na execução do texto. Foi influenciado no humorismo por Cervantes, Swift, Dickens e Sterne. E, na concepção do mundo e do homem, pelos filósofos Xavier de Maistre, Artur Schopenhauer e Pascal. Seus livros preferidos eram a Bíblia, Odisseia, Dom Quixote e Hamlet de Shakespeare. Chegou a estudar grego para ler Homero.

Em Machado de Assis os recursos da ficção são assimilados com paciência, investigação, dedicação. Faz-se a captura dos modelos para que sejam transpostos para a realidade criada com a multiplicação dos meios, absorvidos pela imaginação e sensibilidade tornem-se suficientes no discurso, alcancem o ideal de uma imagem estética da obra. São adquiridos não com pressa, mas através da disciplina da inspiração, do exercício qualificado da transpiração. Assim, com a técnica perfeita assimilada, a expressão suficiente serve para preencher a página em branco, à espera da fatura exemplar a ser exercida pela obra por meio da invenção. 

Adquire-se a boa técnica literária com estudo e investigação, engenho e habilidade, sem a facilidade em querer vestir o espírito da língua através de artifícios nas ideias e concepções de mundo, que não convencem, aspirações e frustações de inspiração hesitante, transpiração artificial, não encontrando o texto aquele ponto necessário para vazar o conteúdo com ricos significados. O talento disciplinado deu-lhe com o tempo o lugar merecido como expoente maiúsculo na prosa de ficção do Brasil, sem vinculação aos ditames das gerações antropofágicas necessitadas de opor-se às tradições, nem com o apego às regras convencionadas por escolas no passado. 

Esse fenômeno literário que foi Machado de Assis teve reconhecimento em sua época, embora com alguns negadores que viam na sua obra o absenteísmo, adesão à visão mecanicista da vida, determinismo e pessimismo, desprovida de nacionalidade, sem a preocupação social e omissa na cor local. Falhava quando não se insurgia contra o perverso sistema escravocrata, com o negro africano relegado a uma coisa abominável, servindo de mão de obra gratuita aos donos do poder. Os que assim pensavam não percebiam que o senso estético, plasmado nos valores e caracteres da personagem, na atmosfera da alma, prevalece na construção de suas criações. A transição de seu processo criativo já é vista com o romance Iaiá Garcia, enquanto o começo da segunda fase, no qual se dá a plena afirmação com o reconhecimento de sua grandeza, ocorre com o lançamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Daí em diante a visibilidade de sua obra com elevado nível rompe as fronteiras locais, seus livros e textos são traduzidos e publicados no exterior.

Como foi que conseguiu esse reconhecimento nacional e além fronteiras vivendo num ambiente cultural atrasado, com os costumes e valores importados do ouropel alheio, circulando no contexto típico de alienação intelectiva, imitativo dos valores alheios, de subordinação aos modelos europeus? Vivia-se no Brasil com o pensamento na Europa. Em sua época, o Rio de Janeiro era uma cidade suja, com ruas estreitas, a do Ouvidor era o ponto principal da cidade onde as senhorinhas desfilavam, frequentavam os bailes, os intelectuais se encontravam nos cafés e confeitarias para nas conversas prazerosas saborear o ócio da vida.  A literatura brasileira que era dependente da francesa tornava-se agora um galho da portuguesa.

.                 A obra de Machado de Assis por ser de pura arte possui uma natureza singular na técnica da construção, transcende o tempo e as escolas, torna-se emblemática em sua concepção de mundo, ultrapassa a época em que foi criada, está sempre aberta para releituras e provocar interesses. Não é documental, datada, restrita aos costumes de uma época. Não lhe interessa a realidade com a sua problemática social e política, importa a verdade que o autor deve ter ao recriar o ambiente exterior e revelar o mundo sob uma perspectiva existencial da humanidade com limitações, incertezas, perdas constantes, conflitos movidos por circunstâncias críticas.   

      Daí o cuidado de caracterizar os personagens, empregar o humor para  melhor solucionar os conflitos, interferir na narrativa, dialogar com o leitor, preocupar-se com a estrutura, a técnica usada com mestria para surpreender nos movimentos conflitantes e cenas no drama. Achar  soluções no impasse, sustentar no pessimismo as contradições da humanidade, ao invés da onisciência narrativa o uso do monólogo. Às vezes o dialogo na condução da história, o estilo indireto livre, os instrumentos necessários para  substituir  a  narrativa linear, com a sequência do princípio, meio e fim, o emprego  da  auscultação da alma, sustentação da atmosfera, introspecção nos pensamentos e sentimentos, sensações impressionistas tiradas nos gestos ambíguos, ao modo de Tchecov. Não queria repetir o equívoco do realismo de Eça de Queiróz em que o espiritual não entra no ponto de vista tirado da realidade como ela é, apresentando-se numa transposição fotográfica para o plano literário, provocando por isso um ritmo repetitivo, que se torna muitas vezes enfadonho, sem prender o receptor no desenvolvimento do quadro.


É visível que o processo criativo de Machado de Assis manifesta-se em duas fases, que são frutos do desenvolvimento consciente de um projeto com o senso estético e consciência. A primeira fase situada entre 1869, data do casamento e estabilização da vida, com a ascensão social firmada, e 1879 quando então vem à tona nesse período  as obras que marcam sua visão do mundo ausente das inferioridades, atritos e conflitos: Falenas (1870), Contos Fluminenses (1870), Ressureição (1873), Histórias  da Meia-Noite (1873), A Mão e a Luva  (1874), Americanas (1875), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), incluindo-se na relação as Crisálidas (1864), poesia.


Nessa fase, o escritor comparece motivado pelas regras da escola romântica, que dava seus últimos suspiros. O perfil feminino dos personagens vem traçado com suas ilusões perante a realidade melhor do que ela é, o escritor ainda não tem a experiência de vida e a observação do mundo através dos choques com a realidade como ela é, com suas verdades escorridas no ponto de vista marcado com o pessimismo e o desencanto. O lastro romântico na escrita convencional subordina os personagens ao relato de cunho sentimental, não tem a força das que convencem no drama e precisam de autoanálise, auscultação da alma, reflexões   da experiência da vida e observação aguda do mundo.  Através do perfil traçado com sentimentalismo, os personagens tendem a mostrar a vida com a tônica da superioridade, melhor do que ela é, o conteúdo impregnado de sentimentos absorvidos de um romantismo decadente. Machado de Assis afirmara que nessa fase de seu processo estético se encontra “um eco da mocidade e fé ingênua.”


Na prosa de ficção dessa primeira fase esboçam-se os meios técnicos e recursos estilísticos depois trabalhados com precisão. Em alguns momentos encontramos o germe de sua técnica de construção ficcional na estrutura e nos flagrantes do drama. No entanto, a introspecção, o desenvolvimento vertical da intriga, o monólogo interior e a auscultação com o espírito da penetração psicológica estão presentes no seu discurso alinear. A crítica  vê os ares da ficção moderna na segunda fase, cuja técnica apurada seria desenvolvida com mestria e daria ao escritor a condição de exímio artista da palavra com foco nas questões universais que acompanham o homem.   


Pode-se dizer que o trabalho de conscientização técnica na arte de compor o conto e o romance se processa em Machado de Assis lentamente, aos poucos mostra-se com o rigor duma evolução longe do artista apegar-se ao produto espontâneo e precoce. Há neste processo um avanço intermitente e não uma dicotomia como querem alguns críticos e neste se inscreve o seu lúcido ensaio “Instinto de Nacionalidade”, publicado numa revista de Nova Iorque, em março 1873, em que se faz presente seu modo de compreender e sentir as coisas dentro da corrente nativista. Segundo Afrânio Coutinho (in Machado de Assis/ Obra Completa, pág. 28), este ensaio mostra que não se deve falar em dicotomia no processo evolutivo do escritor compreendendo as fases antes e depois de 1880 quando surge o exame de sua crítica.

 

“Suas colocações do problema da arte nacional, da influência do povo no estilo, do equilíbrio entre a nacionalidade e a universalidade, ao lado de reflexões sobre os vários aspectos técnicos da arte literária nos diversos gêneros, mostram que estava àquela altura plenamente consciente de seu ofício e aguardava apenas que se lhe amadurecesse a capacidade de realização através dos experimentos que vinha tentando. Como de regra num grande artista, a consciência teórica acordara mais cedo do que a capacidade prática.” 

Nos livros da segunda fase estão elencados todos os restantes da carreira de Machado de Assis,  Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), pertencentes a um Realismo em que funde sua visão da  realidade exterior com o espiritual, no qual o pessimismo é trabalhado com o humorismo. Embora a divisão de sua carreira não seja mais aceita pelos críticos do porte de um Afrânio Coutinho, Eduardo Portella, Barreto Filho, vale ressaltar que já o próprio Machado escrevera numa apresentação de uma reedição de Helena que este e os outros romances da sua fase "romanesca" possuíam um "eco de mocidade e fé ingênua".

Este escritor sem o copioso e com o sintético no estilo preciso é o primeiro que dá ao nosso conto o estofo de entidade literária autônoma. Com relação aos livros desse gênero,  Contos Fluminenses (1870) e Histórias da Meia Noite (1873), consecutivamente, são posicionados em sua primeira fase, Ocidentais (1880), ao lado de Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899), e Relíquias de Casa Velha (1906), na segunda. Em Papéis Avulsos encontra-se o antológico “O Alienista”, sobre o qual os críticos até hoje dividem opiniões, se se trata de uma novela, pela extensão mediana e recortes na narrativa que prende com o desenvolvimento da intriga, ou de um conto que expressa os momentos verticais da vida que se esgotam em si mesmos.

Machado de Assis não utilizou na ficção apenas o ponto de vista interior. Situou-se fora da ação com o ponto de vista exterior, ao fazer o seu relato. Resolveu com segurança a entrada e saída do personagem em cena. Por intermédio de uma narração é apresentado nos comentários, sugestões, explicações dos motivos, reações e atitudes, tendendo de modo geral a dar uma feição dramática ao que pretende contar. A revelação dos personagens é feita por meio de seus próprios atos e palavras, gradual ou aos poucos, pelos diálogos e relatos dos outros personagens. Com esses recursos se tornou um grande mestre na técnica de construção de um conto que impressiona e de um belo romance que faz pensar com sua disposição analítica.  

Na escrita machadiana, a reconstituição pela memória, impressões sensoriais e emocionais desempenham importante papel na captação dos sentidos. É notório que depois da publicação de Brás Cubas cresce a fama de Machado de Assis. É tido por seus colegas de letras como o maior de todos, daí ter levado seu nome para a presidência da Academia Brasileira de Letras. Estava em voga o Naturalismo, cujos adeptos não poupavam elogios ao romance O Mulato, de Aluísio Azevedo. Não tinham os intelectuais da época preparo suficiente para compreenderem as virtudes modernas desenvolvidas na construção do romance e conto machadiano. Só mais tarde iriam compreender isso, reconhecendo que o escritor absorvera com  consciência crítica  a tradição literária, reconduzindo-a remodelada a novas direções. Apoiado nos elementos artísticos, estruturais, temáticos, com a presença da morte, que tudo anula, e da vida com a sua indiferença, calcado no pessimismo, apresentava-se como um genial construtor de uma ficção analítica profunda, que a todos surpreendiam com seus efeitos humorísticos.  

Para confirmar o seu valor literário firmado com grandeza vieram Dom Casmurro, o seu mais belo romance, Esaú e Jacó, de simbolismo mítico, e Memorial de Aires, em que retoma a técnica da narrativa póstuma, como fez no Brás Cuba. Paralelamente, os livros de contos também vão refletir o tempo e o meio da vida carioca, mostrando que na ficção machadiana havia os caracteres locais no alcance de padrões universais, sem deixar de apontar que a vida é má e madrasta, indiferente ao homem, não merecendo nosso esforço, sonhos e lutas. O humorismo usual tece e acontece para provocar o riso abraçado ao rancor, distúrbios e sofrimentos.

Com o problema do homem e seu destino terreno, escorrendo a alma na sua melancolia, tristeza, amargura, ódio, tédio e pessimismo, não é por demais repetir que Machado de Assis assentou o seu talento literário nos ressentimentos que herdou da vida, tornando-se dono do ofício concentrado no ceticismo. É sem dúvida o caso explícito de um fenômeno literário inconfundível. Ultrapassa o seu tempo para permanecer com sua técnica, seu acento, sua personalidade enquanto exista a melhor literatura, capaz de produzir obras antológicas, em que é fácil perceber um talento luminoso na passagem  noturna do ser, dotado de uma rara inteligência.    

 

Referência

 

COUTINHO, Afrânio. In Machado de Assis/ Obra Completa, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1962.

------------------------------ A Literatura no Brasil, Editorial Sul Americana, Rio de Janeiro, 1955/1956.

PEREIRA, Lúcia-Miguel. Machado de Assis/ Pesquisas Psicológicas, In História da Literatura Brasileira, sob a direção de Álvaro Lins; Prosa de Ficção, de 1870 a 1920, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1957.  

Gomes, Eugenio, Prata de Casa, Editora A Noite, Rio de Janeiro, s/d.

SODRÉ, Nélson Werneck. História da Literatura Brasileira, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1960.

5.2.24

A ALMA CANTANTE DE STELLA LEONARDOS, de CYRO DE MATTOS

 

Ascendino Leite, Jorge Amado, Nertan Macedo, Salim Atalla, Stella Leonardos, Edna Savaget em noite de autógrafos em 31 de outubro de 1960 no Clube Monte Líbano. Foto da revista O Cruzeiro.

Autora muito premiada, com destaque para nove láureas concedidas pela Academia Brasileira de Letras, Stella Leonardos (Rio de Janeiro, 1 de agosto de 1923 - Rio de Janeiro, 11 de junho de 2019) publicou mais de uma centena de livros, entre romances, poemas, literatura infantil e dramaturgia. Formada em Letras Neolatinas, tradutora do inglês, francês, italiano, espanhol, catalão e provençal, sua estreia aconteceu com Passos na areia, em 1941. Os críticos costumam situar a vasta obra poética de Stella Leonardos na terceira geração do Modernismo, relacionando nessa condição os livros Geolírica (1966), Cantabile (1967), Amanhecência (1974) e Romanceiro da Abolição (1986).

Nome dos mais festejados pela crítica, Stella Leonardos entregou por muito tempo sua vocação poética ao projeto de recriação de um Brasil bem brasileiro. Da sua alma cancioneira e romanceira salta um Brasil de sentimentos românticos, epicidades, ideais, relatos e saberes populares. Brasil iluminado de estados líricos, formado por elementos míticos, que irrompe do lugar onde nasce a história feita de passagens marcantes, ações, tantas razões e casos.

O épico apresenta, o lírico lembra, o dramático articula mundos interiores    dos seres humanos conflitantes na criação da vida. No palco da duração crítica e contínua dos acontecimentos expande-se a poesia de Stella Leonardos. Conota essa maneira íntima do lírico, calcada em permanente mergulho na memória, feita de emotividade, cena histórica e pesquisa. Gentis seus versos, em Memorial da Casa da Torre (2010) recordam vivências nas arcadas, aludem a finíssimos lavores nos salões e aposentos. Abrem-se nos portões com senhores de terras na época de conquista e domínio. Tocam no berço territorial da Pátria, no músculo dos negros, no primitivismo resistente dos indígenas. Restauram o homem através de intenções, ímpetos, sonhos e idealismo. Retiram-no do passado para ser lembrado no desassombro dos sertões vencidos, entoados na música rústica das boiadas.

Poesia é emoção condensada em linguagem mítica, rica, tensa e ambígua. Reflexão em suas formas geométricas calcadas na imagem, sob o pretexto da escrita para revelar uma ideia. Em Stella Leonardos mostra um discurso significante pontuado pelo som, no ritmo que ela imprime em sua maneira particular de sustentar a ideologia. Sua palavra cantante escorre musicalmente com interferência de vozes, tornadas dinâmicas, apropriadas nas lembranças e cenas descritas.

O registro que é feito do fato bom ou triste é mais endereçado aos ouvidos do que aos olhos. Sua dicção musical enceta versos que dialogam com a história, ecoam procedentes de alguém que permaneceu no tempo.  Em seus cancioneiros e romanceiros tão brasileiros, Stella Leonardos canta e conta. Revive o Brasil com maestria de poeta que encanta, consciente de que no rememorar tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo, como falou Fernando Pessoa.

Assinalada a terra por armas e brasões de uma gente remota, que aqui chegou por mares nunca dantes navegados, o governo português teve que enfrentar situações desfavoráveis para fazer a colonização. Um desses obstáculos consistia na imensidão da terra descoberta, com a sua mata de sono milenar, jamais incomodada. Foi necessário dividir a terra rica em capitanias, glebas de muitas léguas, e doá-las àqueles que tivessem condições de fixar o homem no solo.

Por quase três séculos, a Casa da Torre distendeu suas cordas e acordes de inúmeros serviços prestados ao Brasil, começando pelas guerras aos piratas, aos holandeses e da Independência. Dali partiram os primeiros desbravadores do Norte brasiliense, as intrépidas bandeiras, as principais entradas dos sertanistas do Nordeste.

Em Memorial da Casa da Torre, um dos episódios mais significativos da história do Brasil Colônia, oriundo da influência da prole mameluca de Garcia D’Ávila, que levou domínio e ambição às regiões desconhecidas, Stella Leonardos, com idade avançada, demonstra que ainda domina bem o verso e faz uma poesia cativante, bebendo na tradição da poesia de todos os tempos. Usa o arcaísmo e o neologismo para narrar os acontecimentos da pátria nascendo a passo de marcha. Na decorrência de versos que se alteiam com vozes em coro, de viva gesta, acende sinais luminosos da labareda que haveria de contribuir como ideal de heroísmo, cultura e civilização.

É da tradição da poesia ibérica vazar o amor e a saudade como figurantes que convergem para o lirismo e o épico. O registro de vultos e fatos heroicos são recorrências manejadas por rapsodos com inspiração no populário e saberes anônimos. No caso de Stella Leonardos, o relato poético se municia de pesquisa e de saberes locais do populário. Atenta, a poeta não se descuida de rimar memória e fatos que melhor repercutam ao fazer modelar do nosso cancioneiro e romanceiro. Seus livros aí estão espalhados para que sejam lidos como resultado da aproximação mágica de uma alma sensitiva à nossa memória, arrebatada de sentimentos românticos, valendo-se do histórico por quem ama a beleza e o valor exercido pela estima da Pátria.

No poema “In Memoriam”, introdutório ao assunto deste Memorial da Casa da Torre, Stella Leonardos abre seu verso terno para o que vai contar e cantar, com leveza deixa ser conduzida pela inspiração que lhe é particular:

 

No barro desses tijolos

Por mãos índias acalcado

Quanta voz índia não dorme?

Na alvenaria da pedra

Por mãos afras carregada

Quanta voz negra não pesa?

Na torre desse Castelo

Por brancos rostos vigiada

Quanta saudade não se ergue?

 

A autora desses versos torna suficiente a imagem que interpela e, ao mesmo tempo, contempla a passagem do tempo guardada na memória. Apoiada na sensação do que se refaz triste, sob um ritmo que atrai, nos embala e envolve até o final da cantiga. Como estratégia usual de seus cancioneiros e romanceiros, ela sabe tirar efeito na linguagem quando emprega o neologismo através dos vocábulos que inventa: saudadeado, largoandante, longivozes, multivária, plurilínguas, existenciar, surpresada, passilargo, fugileve, impulsada, noviterra, ensonho, sonoite, novihorizontes, azulando.

A Casa da Torre é a primeira grande fortificação portuguesa do Brasil. As pegadas dos valentes que a povoaram com desassombro inigualável dos tempos de Garcia Dávila renascem neste memorial poético de Stella Leonardos. Da cidadela em ruína, muralhas cobertas de musgo, gestos que resvalam por entre sombras, das fendas e rastros do poder extinto, reencontramo-nos na poesia de versos generosos. Das paisagens com passagens cheias de histórias marchamos, somos levados com o mesmo brilho das gerações que fundaram nossa nacionalidade.

O épico em forma de cancioneiro acontece com o Romanceiro do Bequimão (1979) na lírica de Stella Leonardos. Considerada pelos historiógrafos como nativista, embora haja divergência, a Revolta de Beckman aconteceu no Estado do Maranhão, em 1684. Foi um movimento que contestou o estanco, monopólio exacerbado da Companhia do Comércio do Maranhão, que atuava como uma das instituições fundamentais da ordem colonial, tanto quanto o escravismo e o latifúndio. Os que acham que não se tratou de um movimento nativista argumentam que houve apenas uma contestação de natureza econômica ao poder colonial, motivada pelo descontentamento contra o desmando da Companhia de Comércio do Maranhão.

Movimento nativista dentre os primeiros em território brasileiro, embora desencadeado por razões econômicas, foi impulsionado no seu inconformismo pelas discordâncias veementes dos comerciantes locais, que se sentiam espoliados pelo monopólio da Companhia, e os proprietários rurais que entendiam serem insuficientes os preços oferecidos pelos seus produtos. Além disso os apresadores de indígenas estavam inconformados com a aplicação das leis que proibiam a escravidão dos nativos. Nessa conjuntura de inconformismo, a população protestava contra a irregularidade do abastecimento dos gêneros e os elevados preços dos produtos.

Esses fatos, somados aos privilégios concedidos aos jesuítas, conduziriam à eclosão da revolta. Teve como líder Manoel Beckman, senhor de engenho, que contou na sua façanha de rebelado destemido com o auxílio do irmão Thomas, encarregado de escrever os cordéis e distribuir entre as gentes indignadas. 

Ante essa forma de opressão imposta pelo monopólio da Companhia, surge a figura do revolucionário Manoel Beckman, o Bequimão, português radicado no Brasil. Seu desempenho de rebelado contra a forma tirânica de atuar pela Coroa Portuguesa e que culminou na morte pela forca faz com que alguns estudiosos o considerem mártir da Independência do Brasil muito antes de Tiradentes.

A revolta foi debelada com a chegada de tropas a São Luís sob o comando do tenente-general Gomes Freire de Andrade. Foi expedida ordem de prisão contra Manuel Beckman, que fugira, oferecendo-se por sua captura o cargo de Capitão das Ordenanças. Para obtê-lo, Lázaro de Melo, afilhado e protegido do líder revolucionário, traiu o padrinho e o entregou preso às autoridades portuguesas.  Apontados como líderes da revolta, Manuel Beckman e Jorge Sampaio de Carvalho receberam sentença de morte pela forca. Os demais envolvidos foram condenados à prisão perpétua.

Esse o quadro histórico que motivou a poeta Stella Leonardos escrever o Romanceiro do Bequimão, não fazendo como de costume, no seu discurso lírico e épico, poesia da história, “mas contando sonhos sem conta”, inventando com uma lírica que encanta e uma épica que tudo apresenta esse tempo de cobiça e intriga. Com mergulhos da alma dentro do que aconteceu e diálogos oportunos com pessoas e fatos, através de linguagem cadenciada na rima herdada de suas raízes ibéricas, faz com que rudes brasis convirjam e brilhem nos intertextos que esplendem no ritmo de baladas e acalantos, permeados com elementos africanos, indígenas e populares.

 

Lá dos antigos sobrados

De azulejos feito a mão

Uma saudade em pedaços

Me conta do Maranhão

(página 15).

 

Sabe-se que a Lira é vista como a poesia do eu, da confissão ou da emoção. A palavra revela-se associada à música, à melodia que escorre de seu ritmo. Na poesia épica, o poeta apresenta os fatos singulares de um povo, narra os feitos de um herói através de acontecimentos extraordinários. A poesia lírica nas raízes mostra-se associada aos cancioneiros, reunião de canções, transmitida por via oral com seus temas populares. O romanceiro é atividade poética luso-espanhola, de natureza épica e lírica, anônima, foi transmitida por via oral durante a Idade Média, configurada nos romances, compilada em volume integral ou antológico.

Tanto no cancioneiro como no romanceiro, o que se nota na poética de Stella Leonardos é uma paixão de escrever com uma vontade preocupada com a conscientização de nossas raízes, com vistas a um alcance de nossa possível e complexa identidade cultural.  A natureza multiforme cultural e rigor disciplinar com bases no método que lhe é peculiar, fincado nas raízes ibéricas, encontram-se juntos em Stella Leonardos formando uma apetência consciente incomum, soltando uma voz inconfundível como forma de atitude existencial, que faz a autora possuidora de planos poéticos envolventes para a sustentação de sua prodigiosa inventividade literária.  E assim, com uma postura até certo ponto nativista, com assuntos colhidos na história e nas tradições populares, ativados na memória do coração, Stella Leonardos vem escrevendo uma monumental obra cancioneira e romanceira. Um extenso mapeamento lírico que se distribui por um conjunto de volumes tendo como marca a atenção máxima de nossa rica e multiforme formação cultural, a se alimentar de um portentoso filão brasílico.

Poeta que inventa e reinventa assuntos entranhados em nossa história, forma seu discurso literário enorme constituído muitas vezes de aproveitamento de outros discursos, os quais passam a ser reconstituídos por um eu poético criativo, no qual usa a linguagem arcaica, que nele se renova com graça e beleza. Retoma os elementos ancestrais trazidos de outras fontes para o texto presente, que se apresenta assim enriquecido por uma sensibilidade apurada, com manejo profícuo dos recursos da língua, achados no nascedouro longínquo.

Romanceiro do Bequimão é a confirmação das considerações de que Stella Leonardos tem uma obra épica e lírica das mais expressivas na poesia brasileira. Dos meios torpes e obscuros, das baladas e acalantos, ela sabe tecer com fina sensibilidade as vozes seresteiras das duas filhas do Bequimão, fazendo-as ressurgir do fundo da memória com alegria e tristeza, tecer o pasmo neste homem, que não se submete aos lacaios da Companhia.

 

Em oratória ignorante?

Mas por instinto, tribuno,

 

Das janelas do senado

Convertidas em tribuna

 

Falava ao povo constante

E o povo aplaudia, uno

 

Manuel do verbo alumbrado.

Bequimão único e íntegro

(pág. 94)

 

Do que está escrito e do que não está escrito, do que não se conta, mas que se acredita, de um povo tolerante, desse cavaleiro que Deus deu voz alta, repelido de uns, esquivados de outros, depois de sentenciado, sabe-se nesse romanceiro quando se deu o momento em que foi sentida a grandeza eterna no exemplo raro. Solidário e justo quando os corpos penderam.

 

Tocando de novo a terra,

Foi tão-só que a luz se fez,

E fez sentir algo novo.

(pág. 151)

 

LEONARDOS, Stella. Memorial da Casa da Torre, Gráfica Santa Marta, João Pessoa, Paraíba, 2010.

---------------------------- Romanceiro do Bequimão, Edições SIOGE, São Luís, 1979.

 

*Cyro de Mattos é autor de mais de 65 livros pessoais, de diversos gêneros. Premiado no Brasil, Portugal, Itália, México e Cuba. Editado e publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Cuba e Dinamarca. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.